The Border Trilogy

Eu finalmente acabei a Border Trilogy, de Cormac McCarthy. 1000 e poucas páginas. Oficialmente o Livro Mais Longo que eu já li—posição até então ocupada por um Harry Potter. Apesar que são três livros em um, então talvez não qualifique. Eu me sinto gigante, invencível. Porque foi um esforço consciente. Manter a atenção em um objeto estático por mais de alguns minutos pode ser uma tarefa difícil. Sei que isso não faz de mim uma pessoa melhor nem nada, é só um sentimentozinho de realização.

Entre longas descrições de conversas em volta de fogueiras, refeições com tortilla, feijão e café, detalhes de paisagens na fronteira do México com os Estados Unidos, apareciam trechos como esse:

The blind man sat for some time. He could have been sleeping. He could have been waiting for word to be brought to him. Finally he said that in his first years of darkness his dreams had been vivid beyond all expectation and that he had come to thirst for them but that dreams and memories alike had faded one by one until they were no more. Of all that once had been no trace remained. The look of the world. The faces of loved ones. Finally even his own person was lost to him. Whatever he had been he was no more. He said that like every man that comes to the end of something there was nothing to be done but to begin again. No puedo recordar el mundo de luz, he said. Hace muchos años. Ese mundo es un mundo frágil. Ultimamente lo que vine a ver era más durable. Más verdadero.

E eu tenho o mundo inteiro pela frente.

Eduardo Galeano Futebol

Quando o Mundial começou, pendurei na porta da minha casa um cartaz que dizia: Fechado devido ao futebol.

Quando o retirei, um mês depois, eu já havia jogado sessenta e quatro jogos, de cerveja na mão, sem me mover da minha poltrona favorita.

Essa proeza me deixou moído, com os músculos doloridos e a garganta arrebentada; mas já estou com sentindo saudades. Já começo a sentir falta da insuportável ladainha das vuvuzelas, da emoção dos gols não recomendados para cardíacos, da beleza das melhores jogadas repetidas em câmera lenta. E também da festa e do luto, porque às vezes o futebol é uma alegria que dói, e a música que comemora alguma vitória dessas que fazem os mortos dançar soa muito parecido ao clamoroso silêncio do estádio vazio, onde algum vencido, sozinho, incapaz de se mover, espera sentado em meio às imensas arquibancadas sem ninguém.

O final de Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano (leiam).

Kurt Vonnegut sabia

Kurt Vonnegut morreu no último dia 11 de abril, com 84 anos.

Em 1996 ele escreveu Timequake.

Uma passagem de Timequake, logo no comecinho, diz assim: “Recuperei algumas das suas milhares de histórias que ele escreveu entre 1931, quando estava com quatorze anos, e 2001, quando morreu aos oitenta e quatro anos.

Ele se referia a Kilgore Trout, o velho escritor de ficção científica.

Kilgore Trout não existe na realidade.

Ele foi alter ego do Vonnegut em alguns de seus romances.

Kurt Vonnegut

A morte do Kurt Vonnegut me fez lembrar que eu estou com o Timequake que a Fer me emprestou há mileano e ainda não li.

Ter lido a notícia lá no blog do Marco Aurélio me fez lembrar que quando a Fer me emprestou o Timequake ela também me emprestou o Balde de Gelo (visite o blog), escrito pelo próprio Marco Aurélio junto com a Daniela Macedo. Ainda não li esse também.

Isso me fez pensar o quão pouco eu ando lendo coisas impressas ultimamente. E ter pensado isso me fez perceber que eu preciso de um empurrão, uma coisa radical, que me faça querer voltar a ler, ou seja, um livro de alguém que eu realmente goste. Uma figurinha fácil, um chavão.

No caso, Nick Hornby. No caso, Alta fidelidade. Alugado na biblioteca da PUC, porque da vez que a Fer me emprestou ele eu também não li e devolvi depois de um tempão, com vergonha.

Eu preciso ler o Kurt Vonnegut.

Não li e não gostei

“a arte de não ler é muito importante. consiste em não sentir interesse algum por aquilo que está a atrair a atenção do público numa determinada altura. quando um panfleto político ou eclesiástico, um romance ou um poema estão a causar grande sensação, não devemos esquecer-nos de que quem escreve para tolos tem sempre grande público. uma condição prévia para ler bons livros é não ler os maus: a nossa vida é curta.”

– frase de arthur schopenhauer, retirada da comunidade “não li e não gostei”.