Eduardo Galeano Futebol

Quando o Mundial começou, pendurei na porta da minha casa um cartaz que dizia: Fechado devido ao futebol.

Quando o retirei, um mês depois, eu já havia jogado sessenta e quatro jogos, de cerveja na mão, sem me mover da minha poltrona favorita.

Essa proeza me deixou moído, com os músculos doloridos e a garganta arrebentada; mas já estou com sentindo saudades. Já começo a sentir falta da insuportável ladainha das vuvuzelas, da emoção dos gols não recomendados para cardíacos, da beleza das melhores jogadas repetidas em câmera lenta. E também da festa e do luto, porque às vezes o futebol é uma alegria que dói, e a música que comemora alguma vitória dessas que fazem os mortos dançar soa muito parecido ao clamoroso silêncio do estádio vazio, onde algum vencido, sozinho, incapaz de se mover, espera sentado em meio às imensas arquibancadas sem ninguém.

O final de Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano (leiam).

Lionel Messi não se joga nunca

Vocês precisam ver esse vídeo. O título é um pouco exagerado, mas são quase 7 minutos do Messi tomando porrada por todos os lados e não caindo. É impressionante. O juiz paralisa, o time todo para, Pep Guardiola se desespera e o cara lá sozinho com a bola. Puxão de camisa, calção, canelada, chute no joelho, soco na cara, parada violenta mesmo. É igual o Ronaldo fazia. Tem 60 adversários pela frente, ele fala “vou lá fazer o gol e foda-se” e vai.

É sobre o quão forte você consegue apanhar e continuar em frente. Quanto você consegue aguentar e continuar em frente. É disso que as vitórias são feitas! Se você sabe o quanto vale vá lá e pegue o que você merece. Mas você precisa querer fazer isso, e não ficar apontando dedos dizendo que você não está onde gostaria por causa dele ou dela ou de qualquer um.

Torcida do Celtic cantando Just can’t get enough

When I see you Celtic, I go out of my head,
I just can’t get enough, I just can’t get enough,
All the things you do to me and everything you say,
I just can’t get enough, I just can’t get enough,
We slip and slide as we fall in love,
And I just can’t seem to get enough of… Doo doo doo doo doo doo doo doo…

Muito fera. Vi no Matias.

Zidane: Um retrato do século 21

Zidane, esse documentário-arte, não é só sobre o jogador. Não tem entrevistas nem flashbacks, não tem a família e os amigos chorando nem treinadores e colegas entregando segredos ou exaltando qualidades. O filme é sobre a figura do jogador de futebol como jogador de futebol. Porque hoje o cara não consegue mais ser apenas jogador de futebol, ele é também um personagem de novelas. Existem jogadores com tramas que renderiam filmes escritos pelo Carlos Lombardi e dirigidos pelo Steven Soderbergh.

Durante um Real Madrid vs Villareal em 2005, 17 câmeras acompanharam Zinedine Zidane, um dos melhores da nossa época. Ali não vemos jogadas, gols ou faltas, mas ações e reações do homem. É um filme, não um jogo. Quando o Villareal marca o primeiro (de um pênalti polêmico sofrido por Diego Forlán), não vemos a cobrança mas Zidane educadamente dizendo ao juiz que, com todo respeito, ele deveria sentir vergonha da marcação. No gol de empate, o replay da TV com narração, serve apenas para enfatizar a linda jogada de Zizou antes do cruzamento na cabeça do Ronaldo (outro dos melhores da nossa época). No gol da virada não vemos repetição nenhuma (nem sei de quem foi) apenas a reação do Maestro. É lindo isso, é como se o futebol cedesse espaço ao jogador.

E aí o filme acaba antes do apito final porque Zidane se envolve numa confusão e é expulso faltando alguns minutos. O motivo exato disso não está claro ali no filme porque não importa. Zidane não é um jogador que tenta fazer jogadas, ele faz as jogadas. Não tem erro ou acerto, não tem desculpas, tudo faz parte do jogo. Zidane sabe que não existe sucesso como o fracasso e que o fracasso nem é tão sucesso assim.

Não gosto de dizer que “hoje” não existem mais jogadores assim, que “antes que era bom” e essas coisas. Não quero parecer um saudosista que vive num tipo de Era de Ouro do futebol nem nada. Nem faz tanto tempo que o Zidane parou. Sempre teve jogadores que gostavam de aparecer e o pessoal até gosta disso (apesar que antes não existiam tantos Videos Show de futebol como existem hoje). O futebol que eu lembro quando vejo Zidane não é O futebol, é UM futebol. Não quero pensar que essa ideia do jogador como jogador morreu.

O filme em si é interessantíssimo. O jogador está sempre ali: perto no zoom, longe da câmera lá do outro lado do estádio, pela tela da TV, sozinho olhando pro placar eletrônico, pedindo bola, sofrendo falta, driblando. A trilha sonora original, do conjunto Mogwai, é bem agradável. Algumas citações legais aparecem durante o jogo, muito discretas, em letras brancas, de muito bom gosto. Tem uma história de que uma vez (e apenas uma vez), antes mesmo de receber a bola Zidane sabia que ia marcar o gol no fim da jogada. “O jogo, o evento, nem sempre é vivido em tempo real”.

Eu até ia pesquisar umas informações pra deixar o texto mais pro, mas desisti. Procura aí, o filme se chama Zidane: A 21st century portrait e é de 2006. Nada mais importa, só o jogador.

Os objetivos imediatos de Brasil e Uruguai

Era um contenda que colocava em disputa direta, tendo como cenário um dos maiores palcos do futebol mundial, seleções que têm tudo para serem protagonistas em 2014. Bem distante destes coletivos milionários disputados em milharais cobertos pelo lodo, bancados por quase-ditadores ou pelo petróleo, que a Seleção Brasileira já perdeu a vergonha em realizar.

Impedimento é o melhor blog de futebol.