Chatos sobre duas rodas

Tem esse texto que saiu na Gazeta uns dias atrás. Como lá não tem espaço pra comentários, decidi escrever uma resposta pessoal e ela ficou bem longa.

Quem é o sujeito mais chato da cidade? Não sei, mas tenho a impressão de que é o Poeta Sem Poesia e Sem Obra. Esqueci o nome, alguém sabe? Toda vez que um livro é publicado, o sujeito entra nas redes sociais e, sem ler a obra, tenta desconstruir o autor. Não, o Poeta Sem Poesia e Sem Obra é o ser mais invejoso da capital do Paraná.

Talvez a chatice se revele plenamente na Banda da Internet, a que lançou a canção de uma frase só, e depois sumiu. Esqueci o nome do projeto, chato, muito chato.

Não entendi esse começo. Eu não sei se esse vai ser um texto de humor – pra quem ele escreve e quem é o alvo? Eu não consigo captar a ironia desse tipo de gente. O projeto que ele fala é a Banda mais bonita da cidade? Como que meu amor ele esqueceu essa é a última oração um nome desses pra salvar seu coração se a música tocou tanto coração não é tão simples quanto pensa nele cabe o que não cabe na despensa?

O sujeito mais chato da cidade são vários. É uma legião. São os chamados cicloativistas.

Ah, eu acho que ele não tinha esquecido o nome da banda. Ele estava apenas jogando com o leitor. Talvez esse seja mesmo um texto de humor. Ele vai falar dos chamados cicloativistas. Já ouvi falar desse grupo, são as pessoas que não têm dinheiro pra comprar um carro.

Eles são chatos por serem equivocados. Em primeiro lugar, pelo óbvio ululante. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informa que tem chuva a cada dois dias em Curitiba. Como o sujeito que pedala poderá se deslocar? Vai chegar encharcado e sujo aos compromissos?

Eu nunca entendi direito a expressão “óbvio ululante”, mas na verdade tem como pedalar na chuva. Eu não posso dizer com certeza, mas teve um cara que eu encontrei uma vez no Barbaran que me contou que estudou com um cara na faculdade e esse cara ia pra aula de bicicleta na chuva. Não sei exatamente como ele fazia, não tenho todos os dados aqui comigo e já faz tempo que eu ouvi essa história, mas parece que a bicicleta do rapaz tinha paralamas parecidos com os das motos, e ele ainda usava uma capa de chuva por cima da mochila. A barra da calça ficava um pouco molhada, mas nada que incomodasse. Se a chuva era forte e ele ia passar muito tempo fora, levava um par de meias extras na mochila e trocava no banheiro. Nunca tive certeza se essa história era verdadeira.

Além da onipresente chuva, há uma outra questão.

Pois é, que medo da onipresente chuva, como se ela viesse sempre na mesma intensidade. Tem esses dados aí no Instituto? Imprime e manda uma via pra mim.

Vamos supor que o cicloativista more no Sítio Cercado e trabalhe no Centro. Vai sair de casa e suar 17 quilômetros antes de bater o cartão?

Vamos supor que o cicloativista retardado more no Sítio Cercado e trabalhe no Centro, em uma empresa de primeiro mundo como aquelas que a gente vê na TV que oferece banheiro pros funcionários. Ele vai sair de casa pedalar um pouco mais de 40 minutos antes de bater o cartão? Na chuva? De olho fechado? De costas? Sem as mãos? Duvido. O único jeito de alguém se deslocar os 17 mil km de casa pro trabalho é de carro e todo mundo sabe disso.

O cicloativismo é farsa. É fraude, sobretudo, porque quem se diz cicloativista mora perto. De tudo. São pessoas que podem caminhar, poucos passos, até o trabalho, a escola, o bar e o evento. Mas não.

Gente, olha quanta ideia errada. Esse sujeito, que eu não posso admitir que trabalhe na Telerj, não sabe do que está falando. Os tais cicloativistas aos quais ele se refere no texto (é de humor esse texto?) não querem ir e voltar do trabalho do outro lado da cidade na chuva todo dia. Eles querem, primeiro de tudo, poder fazer isso. Eu sou o “cicloativista que mora perto de tudo”. Ah, é por isso que eu escrevi esse texto. Eu moro no Mercado Municipal, trabalho na Praça Osório e jogo futebol toda terça à noite num lugar que fica na João Negrão com a Engenheiro Rebouças. Minha namorada mora no Campo Comprido, a 12km da minha casa. Eu vou a todos os jogos no Couto Pereira. A mãe mora perto do Pollo Shop do Alto da XV.

Cicloativismo é proposta de uma minoria mimada e chata que, a exemplo de um candidato a ditador latinoamericano, engrossa a voz para – autoritariamente – enunciar ordens e equívocos.

Atenção, seus desgraçados. Escutem todos. Como que vocês acabaram de reformar o Mercado Municipal e nós cicloativistas ainda temos que amarrar as bicicletas nos postes? Ah, se as pessoas forem de bicicleta no Mercado como vão carregar as compras? Isso não cabe a vocês decidirem, seus filhos da puta. Vilson Ribeiro, você está lendo com atenção? Eu exijo que você coloque um paraciclo no Couto, se não colocar será deposto do cargo. Eu faço questão que seja um paraciclo que eu possa prender a bicicleta pelo quadro e não só pela roda. Faça isso até o final do ano. Alô prefeitura, quando que vocês vão colocar um sinal decente na Mariano Torres com a Visconde? Os carros vem dos dois lados até o limite do sinal laranja, não dá tempo de atravessar aquele cruzamento, seu bando de safados bandidos que não valem nada.

O que caracteriza o cicloativista, além da chatice, é – de fato – o autoritarismo. Qualquer pedestre sabe que nas calçadas e, pior, nas ciclovias, cada passo é uma África. Os sujeitos que circulam sobre duas rodas, com capacete e ideologia, são tão agressivos como os motoristas descontrolados. Querem se impor e, em ação afirmativa, quase atropelam – diariamente – bípedes com polegar opositor que apenas caminham.

Eu gostei desse trecho, “capacete e ideologia”, “cada passo é uma África”, isso é uma música do Plá? Qualquer pedestre sabe. Os sujeitos que circulam sobre duas rodas. Se escondendo atrás de um grupo, tentando falar por todos, jogando um contra outro, vilanizando um lado e vitimizando o outro. Essa postura fode a vida. Andar nas calçadas ou pior nas ciclovias. Eu não falo por todos os que andam de bicicleta aqui, eu falo por mim. Ciclovia, como o nome já diz, é uma ciclo via. O que temos em Curitiba, pelo menos nos trajetos (curtos, é bom sempre deixar claro) que eu faço, não são ciclovias, são vias compartilhadas. A prefeitura jogou um asfalto ali na calçada e agora pintou de vermelho, não se enganem. A minha postura nesses trechos (e eu estou pensando especificamente na Mariano Torres) é se impor com respeito. Se eu estou pedalando na via compartilhada e avisto um pedestre amigo caminhando tranquilamente como se estivesse numa calçada, eu diminuo o ritmo, aperto a campainha (minha bicicleta é equipada com uma campainha) até que ele note minha presença e saia da minha frente. Se é um adulto com criança, eu sempre vou pelo lado do adulto porque se eu for pelo lado da criança o adulto pode se assustar e puxar a criança e às vezes até brigar com a criança (já aconteceu.) Eu queria que ali fosse uma ciclovia, mas é uma via compartilhada. Tem gente caminhando, tem crianças brincando, tem os carrinheiros puxando os carrinhos, tem carros estacionados. Eu respeito todos. Nem todos são como eu, tua vó já quase foi atropelada por um maluco? Não sei, não me importo, estou falando por mim, fale por você.

O ciclativista é como o Poeta Sem Poesia e Sem Obra: reclama que o mundo deve algo a ele. Mas não faz nada para mover a roda viva. Ou melhor, faz sim. O ativista de bike quer circular em meio aos carros, mas segue na contramão, sobre calçadas, fazendo tudo errado, inclusive a desrespeitar sinais de trânsito.

De novo essa história de “Poeta Sem Poesia e Sem Obra”? O que isso quer dizer? Será que é tipo quando o Emicida fala que ser favelado é ser soldado de bandeira nenhuma? A gente quer ter voz ativa, cara. Fala em respeito aos sinais de trânsito como se a questão fosse tão simples, como se os sinais de trânsito servissem pra todos. O trânsito não é planejado pra todos, ele é planejado só pros carros, parem de hipocrisia. O que existe pra pedestre e ônibus é gambiarra, quem anda pela cidade fora do carro percebe isso com mais clareza. Os tempos dos sinais são calculados pros carros, ou você consegue atravessar a João Negrão com a 7 de setembro sem correr? As placas indicativas só servem pros carros ou você precisa mesmo virar na Atílio Bório e passar por baixo do Viaduto Capanema pra chegar na Rodoviária se estiver na Ubaldino do Amaral? Se eu não furar o sinal dos pedestres da Westphalen na Rui Barbosa infelizmente eu corro o risco de ficar embaixo de um Ligeirinho já na esquina da Visconde de Guarapuava. Não faz mais sentido não ter uma faixa pra bicicleta no Calçadão da XV. Aquele lugar é comercial, não cabe mais estacionamento, tá cheio de entregadores correndo no meio dos pedestres, ia ser tão mais fácil. Pra sair da Praça Osório e ir pra 7 de setembro dentro da lei ou eu empurro a bike pelo calçadão até a Westphalen ou eu faço a volta que os carros têm que fazer pela Rui Barbosa. Isso não faz nenhum sentido, gente. Só vai dar pra começar a discutir essa questão do ciclista respeitar sinal de trânsito quando o trânsito for justo.

Nem motorista, nem pedestre, o cicloativista é, além de chato, o equívoco social contemporâneo. Quer causar. Busca autopromoção. E, ora direis, consegue holofote e até ocupa espaço no jornal. Hoje, invadiu até esta coluna.

E esse texto de opinião saiu na mesma semana que essa outra notícia. É tipo: os ciclochatos querem porque querem uma ciclovia aí a gente faz a tal da ciclovia e eles ainda reclamam? São todos um equívoco social contemporâneo. Vejam, essa ciclopiada da Linha Verde, que só quem aproveita é o Luiz Manoel Salles de Souza, tava na cara que isso ia acontecer. Eles esperam que o cicloativista sue por 17km numa via em zig-zag, sem sinalização própria e sem guia rebaixada? Não vão andar mesmo, estão certos em ir pela canaleta. Consegue holofote e até ocupa espaço no jornal e hoje, invadiu até esta coluna. Invadiu nada, meu. Você que colocou aí, quem escreveu esse texto babaca foi você, assuma a responsabilidade.

Esse tipo de texto é irresponsável, isso é um desserviço a causa. Foi publicado num jornal de grande alcance, muita gente leu e concorda com esse monte de ideia errada. A causa, que eu falo, é querer ter uma cidade mais justa e democrática pra todos. Eu quero poder escolher ir de bicicleta num dia e de ônibus no outro. E se eu quiser ir de carro, eu não quero ter que ficar mais parado do que em movimento. Eu quero não precisar ter um carro pra me sentir parte do espaço público. Eu nem citei as cidades européias que parecem tão legais, Copenhague, Berlim, Amsterdã. A gente tá longe dessas cidades pra falar. Estamos mais perto de Bogotá, que parece que tem feito bastante coisa boa nesse sentido. Mas eu não posso me aprofundar nesses exemplos, não sou jornalista, não pesquisei. Alguém pode responder, vai de bike então e não encha o saco. Sim, é isso que eu estou fazendo. Tem mais gente fazendo também. Mas vai ser sempre assim? Parece que as discussões sobre esse assunto sempre envolvem pólos extremos: os monstroristas mandam uma ideia de um lado e os talibikers respondem lá do outro. Os dois estão muito distantes um do outro, tem muita coisa no meio.

Há sujeito mais chato? Sim. Talvez, eu.

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2 comentários sobre “Chatos sobre duas rodas

  1. Crítica superficial, boba e infantil. Claramente, o amigo Marcio Renato dos Santos não tem vocação nem pra dar uma causada. “Ciclistas dão meia hora de cu”, “ciclistas cheiram pó e vão se tatuar”, “os chatos sobre duas rodas cagaram no meu jardim”, qualquer uma dessas teria um efeito melhor do que perder tempo escrevendo parágrafos tão rasos e desinformados sobre o bagulho, mas enfim.

    Marcio, chegou aqui um fax da EqUiPoLeMiKos dizendo que você está fora do grupo.

  2. como estudate de Arq. e Urbanismo, e antes disso cidadão, só devo concordar contigo quando diz que “O que existe pra pedestre e ônibus é gambiarra.”

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