Zidane: Um retrato do século 21

Zidane, esse documentário-arte, não é só sobre o jogador. Não tem entrevistas nem flashbacks, não tem a família e os amigos chorando nem treinadores e colegas entregando segredos ou exaltando qualidades. O filme é sobre a figura do jogador de futebol como jogador de futebol. Porque hoje o cara não consegue mais ser apenas jogador de futebol, ele é também um personagem de novelas. Existem jogadores com tramas que renderiam filmes escritos pelo Carlos Lombardi e dirigidos pelo Steven Soderbergh.

Durante um Real Madrid vs Villareal em 2005, 17 câmeras acompanharam Zinedine Zidane, um dos melhores da nossa época. Ali não vemos jogadas, gols ou faltas, mas ações e reações do homem. É um filme, não um jogo. Quando o Villareal marca o primeiro (de um pênalti polêmico sofrido por Diego Forlán), não vemos a cobrança mas Zidane educadamente dizendo ao juiz que, com todo respeito, ele deveria sentir vergonha da marcação. No gol de empate, o replay da TV com narração, serve apenas para enfatizar a linda jogada de Zizou antes do cruzamento na cabeça do Ronaldo (outro dos melhores da nossa época). No gol da virada não vemos repetição nenhuma (nem sei de quem foi) apenas a reação do Maestro. É lindo isso, é como se o futebol cedesse espaço ao jogador.

E aí o filme acaba antes do apito final porque Zidane se envolve numa confusão e é expulso faltando alguns minutos. O motivo exato disso não está claro ali no filme porque não importa. Zidane não é um jogador que tenta fazer jogadas, ele faz as jogadas. Não tem erro ou acerto, não tem desculpas, tudo faz parte do jogo. Zidane sabe que não existe sucesso como o fracasso e que o fracasso nem é tão sucesso assim.

Não gosto de dizer que “hoje” não existem mais jogadores assim, que “antes que era bom” e essas coisas. Não quero parecer um saudosista que vive num tipo de Era de Ouro do futebol nem nada. Nem faz tanto tempo que o Zidane parou. Sempre teve jogadores que gostavam de aparecer e o pessoal até gosta disso (apesar que antes não existiam tantos Videos Show de futebol como existem hoje). O futebol que eu lembro quando vejo Zidane não é O futebol, é UM futebol. Não quero pensar que essa ideia do jogador como jogador morreu.

O filme em si é interessantíssimo. O jogador está sempre ali: perto no zoom, longe da câmera lá do outro lado do estádio, pela tela da TV, sozinho olhando pro placar eletrônico, pedindo bola, sofrendo falta, driblando. A trilha sonora original, do conjunto Mogwai, é bem agradável. Algumas citações legais aparecem durante o jogo, muito discretas, em letras brancas, de muito bom gosto. Tem uma história de que uma vez (e apenas uma vez), antes mesmo de receber a bola Zidane sabia que ia marcar o gol no fim da jogada. “O jogo, o evento, nem sempre é vivido em tempo real”.

Eu até ia pesquisar umas informações pra deixar o texto mais pro, mas desisti. Procura aí, o filme se chama Zidane: A 21st century portrait e é de 2006. Nada mais importa, só o jogador.

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3 comentários sobre “Zidane: Um retrato do século 21

  1. Imagina a lindeza se tivessem feito esse documentário com o Brasil X França na Copa de 2006. Mas como iam saber, né.

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