Eu não acredito na reciclagem

Na faculdade eu tenho uma matéria chamada “gestão ambiental”, onde a gente discute como minimizar as cagadas feitas pelos designers das gerações passadas, que estavam pouco se fodendo pro meio ambiente.

Minha nota na última prova dessa matéria foi 1,7. A nota mais baixa da sala e a minha nota mais baixa desde quando química fazia parte da minha grade. Era uma prova com questões de múltipla escolha, e isso em um curso de design, pra quem não sabe, significa que o professor não está nem aí pra matéria e nem pra nada.

Pra você entender o motivo do título, uma das questões era mais ou menos assim, não com essas palavras: “qual a melhor alternativa pra produzir coisas de giro rápido, como embalagens, e não foder com o meio ambiente?”. E as alternativas eram: diminuir os materiais empregados, aumentar a durabilidade, diminuir a energia da produção ou agilizar pra reciclagem.

Eu que não acredito na reciclagem, marquei a opção “diminuir os materiais”.

A opção correta era, claro, reciclagem.

O motivo, sem argumentar, era: porque sim. Não quero discutir se o professor estava certo ou não, se as questões eram ambíguas, nem quero condena-lo por não querer argumentar. Quero explicar meu raciocínio. Porque se eu, que acredito no papel social do designer, tirei uma nota dessas em uma prova sobre esse assunto, eu não sou simplesmente um mau aluno. Eu sou uma ameaça pra sociedade. Eu deveria ficar retido na faculdade até mudar esse meu pensamento.

Eu acho que reciclagem é um conceito muito bonitinho. Mas não funciona, porque depende de muitos fatores. Tem muita gente envolvida. Muita gente tem que fazer muita coisa certa pra coisa sair direita. É bem agradável pensar que seu potinho de danoninho vai pra uma caixinha cheia de outros potinhos de danoninho, é trituradinha e vira outro potinho de danoninho. Mas não é bem assim que funciona. A quantidade de gente que separa o lixo é muito pequena. A quantidade de gente que sabe que tipo de lixo separar é muito pequena. As pessoas não sabem que papel amassado não pode ser reciclado. Não sabem que as pessoas da coleta têm que lavar tudo bem lavadinho antes de reciclar. Tem um monte de questões que mandam pelo ralo esse conceito utópico da reciclagem perfeita.

Acho que é muito fácil pra um designer fazer uma embalagem bonitona, cheia de vernizes e laminações e plásticos cintilantes, e na parte de trás colocar um bonequinho de banheiro jogando um papelzinho numa lixeira. Afinal, ele fez o papel dele. Não tem como ele saber onde a pessoa vai jogar o lixo, né? Não, não tem. E aí está o problema.

Pra que encher de coisas que dificultam e às vezes impossibilitam a reciclagem uma embalagem que vai ser descartada quase que instantaneamente? Por que vende mais? Sim, porque vende mais. Mas esse é um grande pensamento né. “Vamos colocar essa luva de papel em volta desse cd, fica bonito. Depois o pessoal recicla”.

Acho mais fácil e rápido começar educando designers pra eles pararem de usar tanta coisa em embalagens descartáveis, do que educar todo o resto da população a separar o lixo corretamente.

Claro que seria bom se todo mundo fizesse, mas simplesmente não é assim que funciona. Existem muito menos designers do que pessoas sérias nesse mundo. É mais prático começar pelos designers.

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9 comentários sobre “Eu não acredito na reciclagem

  1. concordo em partes. mas eu acho a reciclagem um negócio bacana. pelo menos aqui na minha cidade tem funcionado bem. além de diminuir a quantidade de lixo (aqui só tem lixão a céu aberto), gera empregos (e muitos), e garantia de renda fixa.talvez se os governos investissem mais nisso, poderia ter um resultado melhor.

  2. Olá, cheguei aqui por acaso. Nem sei se acredito ou não. Lixo é “foda”, como diria você. E não fico nada à vontade tendo de separá-lo e lavá-lo, assim como não gosto da idéia de vê-lo crescendo desorganizadamente e sem destino certo. Gostei da sua idéia. Que comecem, logicamente, pelos designers. 🙂

  3. Concordo 100%. Na prática, reciclagem é nada mais que uma “operação tapa-buracos”. Seria mais sensato simplesmente não criar os buracos, usando a cabeça durante desenvolvimento do produto. E isso é uma responsabilidade, entre outros, do designer. É lamentável que entre aqueles responsáveis por educar novos designers, alguns ainda não tenham acordado. Mas pelo menos taí um aluno de olhos bem abertos, e ele não é o único.

  4. Cara… eu concordo contigo e vou mais além: a consciência social dos designers é inútil. Não ajuda em nada, porra. Sabe por quê? Porque se o cliente não quiser uma porra de uma embalagem descartável, ele manda o designer fazer uma que não seja descartável. E se ele não fizer, arranca as bolas dele fora pela garganta, ou até, demite ele(ou dispensa, dependendo do vínculo).Eu sou publicitário e também acho que começar por quem não adianta de nada é mais fácil. A gente é basicamente liso, sem grana, e sem muita voz, comparado com quem realmente importa: os industriais. Vai tentar convencer aquele povo…PS: Escuto o podcast e resolvi dar uma olhada no teu blog. Achei muito bom.

  5. Na verdade, acho que não aidiantaria muito diminuir os materiais se estes não forem reciclados. Esclarecendo, seria bom apenas se houvesse reciclagem.Eu concordo que nem todo mundo (a maioria) não separa o seu lixo. Sendo assim, a soluçao seria os próprios responsaveis pela coleta do lixo separarem. E quem pudesse (tivesse o minimo de peso na conciencia) ajudasse.Gostei do site aqui =)!Bjs

  6. Concordo que devemos começar pela raiz do problema, mas não só pelos designers. E por isso, toda a população deveria ser conscientizada. O que tenho percebido é que as crianças estão cobrando dos pais que consumam com responsabilidade, que reciclem etc. As escolas estão abordando este assunto desde a infância…. Então podemos acreditar que no futuro estas crianças, futuros designers, administradores, empresários possam ter conciência de produzir com mais responsabilidade sócioambiental e a reciclagem se tornará a última opção…

  7. Prá mim a reciclagem só alimenta (e mal) as pessoas que vivem nos “lixões”, que ONG´s e o poder público deveria se empenhar em dar educação e condições dignas de moradia e trabalho. Lixo é lixo, não podemos incentivar que as pessoas permaneçam pobres para ter quem possa reciclar o lixo dos ricos. O nosso papel como designer é criar coisas funcionais: embalagens poderiam vira porta trecos, utilitários e coisas do gênero. O plástico biodegradável acaba gerando polímeros que teoricamente serão consumidos por bactérias. Será que no futuro essas bactérias não se tonaram uma praga nos mananciais?

  8. Achei meio absurdo este seu post. Não gosto dessas teorias de que o povão é estúpido demais para colocar uma boa ideia em prática, como é a reciclagem. Você tem razão, reciclagem é um processo complexo, que pode ser comprometido por uma única alma estúpida ao jogar um copinho sujo de café em cima de quilos de papel. Mas já existem boas cooperativas responsáveis por coletar, separar e reciclar o lixo que são bem responsáveis, e gente como eu, que pesquisa bastante sobre o assunto para saber o que é reciclável ou não e que leva todo o santo dia o lixo de casa para reciclar. (e ah! Papel amassado é reciclável SIM, mas por ter seu volume aumentado, a maioria dos catadores optam por não levá-lo para reciclar, já que papel liso pesa mais e ocupa menos espaço. Mas se você estiver falando de um posto de coleta municipal, eles vão reciclar mesmo o papel amassado).
    Sei que sozinha eu não vou conseguir acabar com o problema e que infelizmente são poucas as pessoas que fazem o mesmo que eu (imagino que você, por exemplo, seja um dos que não reciclam, certo?), mas acho que também culpar o designer é simplista demais. Mesmo que o designer usasse o mínimo de materiais misturados possível, ainda produziríamos grandes volumes de lixo, não é mesmo? Então, por que não reciclar?

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