e aconteceu

eu estava sentado na esquina da minha casa, uma rua deveras movimentada. estava ouvindo o show do jeff tweedy, relendo o guia do mochileiro das galáxias e esperando a carona pra ir pra aula.
‘o que você tá fazendo aí, cara?’
não entendi, tirei o fone.
‘o que você tá fazendo aí, cara?’
‘tô esperando carona pra ir pra aula.’
era um cara. de bicicleta.
‘ah. onde você mora?’
‘ali.’
apontei. dá pra ver onde eu moro de onde eu estava sentado.
‘é o seguinte. eu sou lá da favela, falou? passa o mp3.’
filho da puta. ele falou. uma das coisas que eu mais tinha medo, esse filho da puta vagabundo falou.
‘não é mp3.’
‘passa o mp3!’
eu tava com medo. com bastante medo. porque eu tenho medo disso. eu economizei o salário de um mês pra comprar o meu mp3. eu não ganhei ele de presente, ou em um sorteio. era uma coisa que eu queria, eu trabalhei e economizei pra isso. aí vem um maluco de bicicleta, e pede a parada. mas ele tava de bicicleta e eu não. ele era da favela e eu não. ele tinha um cano escondido na manga – literalmente na manga. eu estava sentado, e vi um cano. a parte da frente de um cano, sabe. se não sabe, pegue um cano e olhe ele pela frente. mas esse cano podia ser um cano de pvc. ou um revólver. e eu podia tomar um tiro por causa de nada.
‘eu tenho um celular.’
eu não tinha nem 20 centavos dentro da carteira. a única coisa de valor que eu tinha era o celular. acho que ele não ia gostar do guia.
‘então dá o celular.’
dei o celular.
‘agora dá o mp3!’
‘não é mp3.’
minha esperança era convencer o cara que não era um mp3.
‘deixa eu ver.’
puta que pariu. “deixa eu ver”, eu pensei: “puta que pariu, se o cara conhece, eu tô fudido.” tirei do bolso.
‘ó, é só am/fm.’
o cara deu uma olhada.
‘é só rádio isso aí?’
‘é, cara.’
‘então falou.’

entende a minha situação? um filho da puta que não faz nada, queria meu mp3, que eu trabalhei pra pagar, pra trocar por pedra. é preconceito eu pensar isso? o cara tava desesperado por comida? duvido. aqui onde eu moro sei como as pessoas desesperadas por comida são. eu tenho que tomar cuidado? como “cuidado”? eu estava sentado, na frente de um prédio, de uma rua movimentada, em plena luz do dia. o que eu tinha que fazer? eu tinha que ter enrolado o cara? claro que sim, agora eu penso em 4759 coisas que eu poderia ter feito pra enrolar aquele cara. mas na hora eu fiquei com medo. e o cara não estava com medo. e talvez eu tenha sido esperto afinal por não ter deixado o cara com medo. por que ele tinha uma arma – não importa o tipo. e quando um filho da puta armado fica com medo, ele pode fazer grandes cagadas, né.

veja bem, eu não me importo em trocar minha vida pelo meu ipod. eu não sou burro. o que eu não quero – e ficaria muito puto, é entregar a parada pra um cara, e ele chegar na favela: ‘aí, ganhei um otário com esse pedaço de cano aqui ó.’

eu sei que ser roubado na esquina de casa em plena luz do dia é uma coisa pra se pensar.

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5 comentários sobre “e aconteceu

  1. olha sei que isso é algo bem difícil de se passar, que a coisa tá feia pra todo lado, não tiro a culpa do cara, mas será que é só dele, só desse maluco de bicileta? não tem mais coisa por trás disso? tipo, falta de comida é uma delas, falta de educação é outra, falta de empregos, e tantas outras faltas que andam soltas por aí? queria mesmo dizer que ainda tem jeito, que se fizermos alguma coisa o mundo vai melhorar. acho que podemos tentar com que ele não piore por enquanto, mas, meu caro, se prepare porque o pior ainda não chegou.juizo e nãop se meta mais em encrencas

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