o dia em que um maluco, de fato, me ganhou

era umas 21h e eu estava na puc. estava lá tarde assim por causa de uma dependência. estava meio deserto, os botecos estavam fechados, era férias, só os burros mesmo estavam lá. quando estava saindo do portão principal, vi que o ônibus que eu ia pegar estava dobrando a esquina. corri até o ponto. mas acontece que o ônibus não veio até o ponto. por um motivo desconhecido da maioria, ele parou um pouco antes do ponto. mas não no ponto, onde eu estava, sozinho. e ele ficou ali, parado, com a porta fechada, sem ninguém. não deu 2 minutos, um maluco saiu de trás de uma árvore do outro lado da rua. atravessou.
‘e aí irmãozinho.’
‘e aí.’
o cara me cumprimentou. ele estendeu a mão pra mim. e eu cumprimentei. isso é errado. não se deve cumprimentar um maluco que você sabe que vai te roubar. você vai perceber porquê depois.
‘seguinte. eu tô armado, me dá tudo que você tem de dinheiro, e o celular.’
o cara simplesmente pôs a mão na cintura, por baixo da camisa.
‘hmmm. não tenho celular, cara.’
eu abri a carteira. tinha uma nota de dois reais, e três de um. e mais umas moedas no compartimento de moedas oculto fechado com zíper. é claro que eu tenho celular. infelizmente eu tenho um celular. mas o cara não precisava saber. dei a grana pra ele.
‘aí, valeu sangue bom.’
o cara fez um joinha, e saiu.
é claro que ele não estava armado. ele era um espertalhão, que sabia que se dissesse isso ali na frente da puc àquela hora, qualquer um ia dar dinheiro pra ele. me senti muito mal de ter que dar a grana, mas dei porque fiquei com medo. se por um truque do destino o cara tivesse uma arma (de qualquer tipo) eu podia me foder por causa de cincão.
fiquei ali, olhando pro ônibus. quando olhei, tinha outro cara vindo. tinha outro cara vindo! porra. aí, caminhei até a porta. o motorista abriu. eu sentei. abri a carteira.
‘po, o que houve ali?’
‘fui assaltado.’
‘sério? nossa, não percebemos (ele e o cobrador). a gente viu que o cara te cumprimentou.’
viu só. eles não ouviram a conversa. eles viram um cara me cumprimentando.
‘é, me levou cincão.’
estava pegando as moedas.
‘não, não. que é isso. você não vai pagar.’
‘não, mas eu ainda tenho dinheiro.’
‘não, não. que é isso. você não precisa pagar não. vai passar por baixo da roleta.’
o cara apagou a luz do ônibus e eu passei por debaixo da roleta. ele acendeu a luz de volta.
‘esses pivete andam por aí, roubando todo mundo. você não vai pagar hoje. e amanhã, vai pegar esse ônibus aqui também?’
‘vou.’
‘então, não pagar amanhã também.’
‘poxa, obrigado então.’
o ônibus ligou, só estava eu.
‘até onde você vai?’
‘até o estação.’
não ia pra casa, ia no estação ver se tava passando algum filme massa. quando o ônibus tava passando pela frente do estação, o cara parou.
‘vou te deixar aqui, aí você não precisa andar esse pedaço. amanhã te deixo aqui de novo. e tome cuidado.’
‘obrigado, cara.’
o ponto do estação fica há quase uma quadra pra frente de onde ele me deixou. mas no outro dia eu infelizmente saí antes e não peguei o mesmo ônibus.

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3 comentários sobre “o dia em que um maluco, de fato, me ganhou

  1. tem que fazer contato com esse motorista, para ele gravar uma propaganda do “generosidade: espalhe essa ideia”…

  2. Isso me lembra da vez em que eu fui assaltado duas vezes no mesmo dia. Eu também era universitário. Acho que assaltante fareja universitário (o que não faz muito sentido, já que a maioria é pé-rapado). Mas achei impressionante a gentileza do motorista; isso nunca aconteceria aqui no Rio.

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